cigarettes e terra arrasada
- GGabriel Albuquerque
- 27 de dez. de 2015
- 3 min de leitura

enquanto a parabólica enfiada na lama do mangue beat estimulou a demanda por ~brasilidade~ e influências nacionais e regionais, a banda carioca the cigarettes seguia outras frequências. da cidade de itaperuna, interior do rio de janeiro, o guitarrista, vocalista e compositor Marcelo Colares era atravessado pela melancolia e insurgência juvenil das guitarras distorcidas de dinosaur jr., teenage fanclub, yo la tengo, pavement e outros combos do indie rock dos anos 1990. montou a banda em 1994 por "necessidade de expressão", para derramar as suas mágoas. "foi o meio que encontrei de dialogar com o mundo", como ele me contou em entrevista para o jornal do commercio.
contudo, é importante esclarecer que as músicas da banda não são meras lamentações nem mesmo devem ser incluídas no jogo fácil do ~confessional~. the waste land, seu quarto álbum, lançado pelo selo independente midsummer madness , carrega o mesmo título do célebre poema de t.s. eliot. marcelo diz que a homonímia foi coincidência, nada planejado. mas enxerga uma ligação entre o disco e poema: "tem a ver em termo de sentimento de desilusão radical com as coisas. em níveis objetivos e subjetivos também. o termo 'terra arrasada' (waste land) cabe bem para o mundo em que a gente vive hoje. acho que é mais sobre essa percepção de que o movimento é de derrubada dos valores. apesar de não restar muita esperança, isso te dá uma certa liberdade para criar".
a condição é de terra arrasada (objetiva e subjetivamente). mas desde que vivemos todos na mesma terra e, principalmente, ela não é um objeto dado, mas sim inventada e contra inventada por nós, a melancolia existencialista acaba soando como imobilidade. e então o que fazer? que caminho seguir? i must confess that i have no short time solution but I think we should dive into this ocean that it’s opening in front of us. o cigarettes mergulha. e fala das busca, das tentativas, das falhas.
quando tocam there’s beauty in this world (primeiro single do álbum), não estão dizendo. não é afirmação. é um olhar para os lados, incerto e reticente. there’s beauty in this world despite all the villanies. será mesmo? não há como saber. as músicas do cigarettes trazem justamente essa dúvida, permeada por certa ânsia ou desespero pela esperança – uma ausência-presente como a godot de beckett ou como o mantra da esperança. you gotta keep movin’ on, seja em busca da "liberdade para criar", como marcelo diz, seja pelo banal (e fundamental) too much to dream/ too much to get high, como já cantavam em beauty of the day (do primeiro álbum, bingo, de 1997, e ainda presente nos shows atuais).
esta confusão emerge também nas muitas músicas de amor (ou melhor: músicas que são, entre outras coisas, sobre amor) da banda. é o doce sabor das expectativas em mandy v2 (”but if i’m wrong and my dreams come true/ i surrender myself to you”) em desarranjo e conflito com o pessimismo fixo e desilusão de crystaline rebirth (”my dreams will not come true, my dreams will not come true”).
O Cigarettes envolve tudo isso na atmosfera sonora delicada, sensível e introspectiva de Waste land. Um ambiente enevoado onde a visão esconde mais do que mostra. um espaço menor, que faz a música se desdobrar em sentimentos múltiplos .
publicado originalmente no scream & yell