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entrevista: bella, cantando sobre os ossos

  • Foto do escritor: GGabriel Albuquerque
    GGabriel Albuquerque
  • 26 de jan. de 2016
  • 9 min de leitura


Alan Moore, auto-proclamado mágico, diz que "a arte, como a magia, é a ciência de manipular símbolos, palavras ou imagens, para operar mudanças de consciência". A ficção é uma maneira partiuclar de contar histórias, e não uma mentira, um engodo ou ilusão. Está ali uma outra (nova?) maneira de dar sentido ao universo empírico das ações obscuras e dos objetos banais. Racière completa: ''a ordenação ficcional deixa de ser o encadeamento causal aristotélico das ações 'segundo a necessidade e a verossimilhança'. Torna-se uma ordenação de signos. Todavia, essa ordenação literária de signos não é de forma alguma uma autorreferencialidade da linguagem".

Bella propõe: "os sons são e não são criados. trabalhar com os sentidos de uma forma ampla é também trabalhar com uma mediação, no sentido de que é o caminho do meio". Numa outra entrevista que fiz com Yuri Bruscky, ele se coloca na posição de "mediador". Tudo isso é pra uma pequena provocação que Cage já fazia: a arte como discurso não funciona mais. diálogo é outra coisa.

A artista sonora carioca Bella passou pelo cinema, artes plásticas, performáticas e teatrais. O acúmulo dessas experiências permeia a sua construção musical, que envolvem “desde o som, o texto, a presença, o visual até a pesquisa, a astrologia, cosmovisão, luz, sonhos e a fantasia”. Cantar Sobre os Ossos, seu primeiro álbum, dialoga com o excesso informativo, sobreposição. Um som que vem das profundezas. Usando fitas cassete, empilha 23 faixas de áudio (sendo 17 que 17 soam ao mesmo tempo). “Fui testando os níveis de saturação e o efeito corporal disso”. No momento ela está em residência artística em Berlin. De lá respondeu umas perguntas por email sobre o disco, morte, som, performance e sua relação com o feminino.


Você comentou que o cantar sobre os ossos “é e não é seu primeiro disco”. Algumas das ideias do disco (as vozes femininas sobrepostas, repetições, uso de K7, o desgaste, saturação do som etc) já estavam contigo antes da gravação? Como foram amadurecendo?

BELLA – O nascer de cada coisa é sempre frágil e não muito situável. Lembro-me do momento em que “dei à luz”. Estava dentro de um quarto há muitas horas, ouvindo muitos sons com fone de ouvido. Até que uma discussão feminista se alastrou pela internet. Eu estava com um gravador de K7 plugado no computador e de repente me dei conta de que estava com muitas janelas de som do youtube em aberto. Todos os sons eram feitos por mulheres. Já andava pesquisando bastante esse universo feminino, lendo artigos, textos, biografias e ouvindo a produção adormecida das mulheres. Daí comecei a achar muito interessante ter todos os sons ao mesmo tempo sendo tocados e fiz testes com a fita K7. Era uma sensação agradável ouvir um som entrar no outro, alguns pareciam ter nascido juntos. Passei muito tempo com eles no ouvido, e ao desligar, senti muita dor de cabeça. Dei-me conta de que aquilo era o início de um trabalho. Continuei a ouvir por outros dias, e pedi para alguns amigos, indicações de sons produzidos por mulheres e fui agregando à pesquisa. O álbum foi gravado depois de já ter realizado algumas apresentações, na Audio Rebel (RJ), no Perturbe (Curitiba) e no Ibrasotope (SP), e no atelier Meio (RJ). Então, todo esse conteúdo já fazia parte, não há como separar cada coisa.

Explica melhor o mito da loba, a mulher selvagem. Como é sua relação com ele e a forma como ele dialoga com o disco?

BELLA – A loba, ou Mulher dos Ossos, é uma senhora que vive no alto de uma montanha e não tem contato com humanos. Seu único trabalho é o de recolher ossos, preferencialmente de lobos. Ela monta um esqueleto com eles e no fim canta, e o corpo volta a ter vida. Tenho uma relação forte com a linguagem dos mitos, em geral, assim como com os símbolos. Nesse mito o osso é metáfora para aquilo que é indestrutível. Em outras palavras, a Alma ou o Espírito. Uma imagem possível de associar é a da fênix. Por processos pessoais, considero que cheguei nesse nada que é o tudo, e que é simbolizado pelo osso. Da mesma forma, trabalhei com o som. Ele vai sendo desgastado até o limite final e depois, em forma de caveira que é a fita k7, é ressuscitado pelo canto. A voz representa o empoderamento, nesse caso, da mulher.

Você escreveu que o k7 é um "processo morto e o canto entoa o renascimento". Me conta isso melhor e diz por que decidiu lançar nesse formato? acha que se adequa melhor à proposta sonora?

BELLA – A fita k7 é em principio um objeto símbolo dentro do trabalho. Depois do som ser trabalhado digitalmente e empilhado, esse conteúdo é rebobinado e é tocado pela fita, que acrescenta por si só uma outra textura ao som, mais uniforme e desgastada. Justamente por isso tive dúvidas sobre lançar o álbum no formato de cassete, pois assim contaminaria todo o som e não parte dele. A seminal records havia me convidado para o lançamento em cassete junto com outros trabalhos do Cadu Tenório, Thiago Miazzo e Dehors. Então decidi arriscar.

O disco tem essa ligação com a morte e a saturação do som. Como essas questões surgiram para você e como as analisa dentro do álbum?

BELLA – Tenho há alguns anos o exercício com a astrologia, que é uma linguagem baseada em símbolos, assim como a música. A questão com a morte, além de surgir na própria vida, tem a relação simbólica com o planeta Plutão, que é aquele que destrói e também cura. A saturação trabalha justamente com o limiar, com a fronteira entre aquilo que é e pode deixar de ser. É, portanto, uma experiência ligada à morte, também como metáfora para aquilo que transforma ou é transformado. E é disso que se trata o disco.

A ficha técnica do álbum menciona uma "pesquisa". Como foi esse processo?

BELLA – Para compor o trabalho pesquisei muitos sons, não só compostos por mulheres, ou cantados, mas também tocados, produzidos. Tenho um arquivo que só vem crescendo, e cada vez, me conecto com mais mulheres de hoje, de agora também. Alguns amigos foram contribuindo também com essa pesquisa, que consiste em encontrar sons perdidos, pouco conhecidos do universo feminino atuais ou distantes.

Quantas faixas de áudio são empilhadas ao longo do disco? Pode dizer algumas das mulheres que foram sampleadas? BELLA – Nessa montagem empilhei ao mesmo tempo 17 músicas, mas utilizei 23. A cada vez que apresentei, criei montagens um pouco diferentes e cheguei a empilhar mais do que 17. Fui testando os níveis de saturação e o efeito corporal disso. No disco utilizei músicas da Mica Levi, Mulheres Cantadoras da Alma do Nordeste Brasileiro, Meira Asher, Junko, Ute Wassermann e etc.

''Tenho uma relação forte com a linguagem dos mitos, em geral, assim como com os símbolos. Nesse mito da Loba, o osso é metáfora para aquilo que é indestrutível.''

Você é parte do grupo de improvisação feminino Meteoro. Eu gostaria que você comentasse como é sua ligação com o feminino e o feminismo, tanto esteticamente (o cantar sobre ossos é atravessado por isso) quanto política/eticamente (tendo em vista que a música experimental é um terreno dominado por homens).

BELLA – A minha relação com o feminino/feminismo começa em mim mesma. Perceber-se mulher num meio majoritariamente masculino me faz questionar: será mesmo que há poucas mulheres? Onde estão elas? E começo a farejar a história que é o nosso passado e notar que existe um traçado até aqui. Conversei com a Kilza Setti, compositora e pianista radicada em São Paulo, sobre o feminismo. Ela conta que no meio de composição musical ela era uma das poucas mulheres e que partimos sim de um ponto de desigualdade. Ela observou também que há muito mais mulher inserida no meio visual, do cinema e das artes visuais. Existe um fundamento até mesmo bíblico, sociológico que nos leva a essa realidade. Mas a vejo transformar e cada vez descubro e encontro com mais mulheres em prática experimental e sonora. Agora mesmo em Berlim, estarei tocando em trio com duas brasileiras, a Laura Mello e Lisa Simpson no Sowieso e na mesma noite Ute Wassermann (mais uma mulher) fará um duo com Thomas Rohrer [rabequeiro suíço radicado no Brasil].

Li que você já trabalhou como atriz e participou de happenings como o a_borda. Quando e como foi que você começou a se envolver mais diretamente e criar música? Nas suas performances ao vivo você usa essa bagagem das outras artes?

BELLA – Trabalhei como atriz em filmes, uma série de humor, entre outras coisas, mas de fato toco piano desde os 5 anos e sempre estive envolvida com som. Minha família, meus irmãos, tios, primos, todos de alguma forma se relacionam com música, tocam instrumentos, profissionalmente no momento apenas um tio, o Vitto, que reside na França. Também fiz faculdade de belas artes, como minha vó paterna, e cheguei a trabalhar com isso. Considero que o que produzo hoje enquanto som é bem influenciado pelas experiências que tive em artes visuais, performáticas, teatrais, além de outros assuntos. Acho complicado separar os assuntos em caixinhas, essa é uma forma contemporânea de vivenciar o mundo. Cada parte é contida em uma grande, e estamos contidos num plano maior do que o que é percebido. E acredito que toda experiência é agregável, até as que preferíamos descartar...

"Trabalhar com sentidos é mediação, no sentido de que é o caminho do meio. O som habita o espaço 'entre"

Ligado à pergunta anterior, queria saber como você enxerga a performance. Vi um vídeo de uma apresentação na Audio Rebel que tinha uma descrição interessante:

"BELLA é uma entidade fantasma e atua desde os tempos sem nome. BELLA se faz presente a cada aparição. Há muitos níveis de visão. Só vê quem acredita. O limite é irreconhecível. Não se trata de ilusão e sim de expansão. Cresce aquilo que é sentido e BELLA é canal. Canal se situa entre coisas e por isso deixa de ser coisa. BELLA passa a ser coisa quando deixa de existir".

como é então essa entidade, esse corpo que você busca em sua performance? BELLA – Seguindo o mesmo assunto, considero difícil nomear. Tive muito contato com performance, inclusive foi meu objeto de pesquisa na faculdade, isso já faz alguns anos... Ganhei admiração pelo trabalho do Vito Acconci e é natural se impregnar pelas vivencias que temos. Mas não saberia dizer se o que fiz ou o que faço é performance. Assim como não sei nomear o que é música. Cada nomenclatura dessa vem impregnada de história, e caminho para um território desértico. Então, BELLA, além de ser eu mesma, também não é. É um trabalho que envolve desde o som, o texto, a presença, o visual até a pesquisa, a astrologia, cosmovisão, luz, sonhos e a fantasia.

Pensando sobre essa imagem do canal como um entre-lugar, você se vê é mais como uma

espécie de mediadora – ao invés de, digamos, "criadora" de sons?

BELLA – Os sons são e não são criados. Trabalhar com os sentidos de uma forma ampla é também

trabalhar com uma mediação, no sentido de que é o caminho do meio. O som habita o espaço

“entre”, e ele se torna perceptível pela ressonância. A ressonância é o som ligando as partes,

unindo aquilo que está separado materialmente.

Para você, quais as particularidades de um disco como composição e a improvisação com um outro artista?

BELLA – A composição pode ser reproduzida, repetida, ainda que também tenha algum grau improvisado. Ela gera um conteúdo, uma forma. Já o improviso é o estar vivo, é interagir com aquilo que se tem, abrir a escuta integralmente, promover diálogos...Um se insere um pouco no outro.

Quais os projetos para 2016? Pretende soltar mais material com o Meteoro e como Bella? Conta também sobre essa residência de agora.

BELLA – Estou agora em uma residência chamada Uncool, regida pela Cornélia Müller, no vale de Poschiavo na Suíça. Durante o período de umas três semanas estou a tocar todos os dias e gestando novos trabalhos também. Estarei apresentando aqui mesmo um improviso sonoro junto com Thomas Rohrer e KA. Também apresento um trabalho solo chamado Facies em Berlim, no Ackerstadt Palast, nos dias 23 e 24, e junto com isso, em ambos os dias, haverá um solo de dança da Marina Tenório com improvisação minha, do Thomas, do Michael Vorfeld e Audrey Chen (em um dia). Dia 28 experimento com as artistas Laura Mello e Lisa Simpson (Agente Costura) no Sowieso, também em Berlim. Os planos pra esse ano são lançar o Facies, que já está gravado; gravar o primeiro álbum do Meteoro; compilar algo do que foi produzido aqui na residência. Também tenho um projeto com a Rafaela Prestes, em andamento desde 2013, que possivelmente irá sair e uma parceria nascente com a Sanannda Acácia, que pretendo desenvolver mais e se chama Arco Fluxo. Estou pra lançar faixas isoladas, uma na coletânea da HyBrazil, produzida pelo Chico Dub e outra numa compilação do selo No Yearning.

Perfomance Embrulho Noite de Música Experimental, Teatro Marília, Belo Horizonte, 18 de setembro de 2015

Gostaria que você falasse sobre a performance Embrulho, que você já vinha fazendo, e essa nova, Facies, que vai rolar em berlin. Qual é a ideia por trás? O material sonoro é diferente do Cantar Sobre os Ossos?

BELLA – Tem uma gravação do embrulho nessa compilação da seminal. Esse disco Facies (Embrulho + Salvação), sai em breve, estou na mixagem. A Salvação toquei aqui ontem e foi gravado o ao vivo. Thomas Rohrer participa dessa faixa.

Facies é uma constelação, e tem uma relação com agressividade (fui vitima de violência no momento em que Facies encontrou marte no meu mapa natal). Então esse disco se relaciona com a posição vitima/martir, violência, etc... A [artista visual] Laz Camargo tem feito um trabalho em torno de cicatrizes e escolheu embrulho pra performance dela (sem saber de nada!). Não sei se te respondi.

O que eu queria entender é porque tocar debaixo do lençol, sob esse embrulho. Acha que funciona como uma máscara? Penso que envolve um ocultamento da pessoa/performer/músico, e no lugar disso surge uma outra relação, um outro corpo que está ali mediando os sons. BELLA – Sim, existe o ocultamento. Uma amiga que me assistiu aqui disso que imaginou um vulcão. Cria uma interação visual com o som, que não envolve ver o artista, e sim imaginar. Além da menção direta com a palavra embrulho. É uma manifestação visual do sentido mais literal do termo. O que é estar embrulhado? Bem, cabe a imaginação de vocês!

 
 
 

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