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entrevista: negro leo, as políticas e as esquerdas

  • 4 de abr. de 2016
  • 8 min de leitura

em dezembro do ano passado eu havia escrito cerca de 4 mil e 500 caracteres sobre niños heroes para a revista outros críticos. como eu disse naquela ~resenha~, negro leo parece tomar o óbvio, esse presente espírito do tempo, e desorientá-lo, revirá-lo às avessas em confusão, acaso, abstrações, aleatório, desordem, falhas. músicas-imagens desconexas. seu processo de composição dos últimos dois discos (além de niños, também o ilhas de calor) caminha entre as fronteiras da improvisação livre e da forma: acompanhado por sua banda – felipe zenícola (do chinese cookie poets no baixo), eduardo manso (do bemônio na guitarra) e thomas harres (da abayomy afrobeat orquestra na bateria) – o tecladista, cantor e compositor faz uma longa sessão de improviso em estúdio. depois, seleciona alguns trechos e cria a letra em cima desta melodia. e há uma confusão política (micro/macro). krokodil, bebês fantasmas das guerras dormindo, expectativa de gente no brasil, memória do google, turismo sexual no mandela...

leo fez um show solo no recife pelo projeto ouvindo e fazendo música, no museu do estado de pernambuco, improvisando sobre suas músicas. antes, fez um debate sobre novos procedimentos cancionais e "o ouvido triplamente qualificado como contraponto na educação formal da canção".

você se relaciona com um grupo de artistas associados a uma nova “vanguarda” brasileira (bemônio, dedo, chinese cookie poets, metá metá), com os críticos fazendo referências a arrigo barnabé e itamar assumpção. mas você também mostra uma verve mais pop, colaborando com ava rocha. como enxerga o trânsito entre esses polos pop e experimental?

negro leo – eu acredito que a voz esteve para a música como a rostidade para o cinema e a fotografia na era da reprodução técnica, uma espécie de último aceno da aura. não por outro motivo, a canção foi mais excessivamente explorada fonograficamente no século passado do que qualquer outro tipo de música. mas acho que a voz também cria um ambiente neurologicamente mais receptivo à experiência musical porque é a primeira coisa que pinta na experiência musical. ela pinta junto com a noção de ritmo. então eu me sinto ligado à música vocal, não necessariamente pop ou experimental.

qual a importância estética da improvisação no seu trabalho?

leo - isso tá ligado à amizade que estabeleci com o pessoal do [selo] quintavant em 2010, mais precisamente com eduardo manso, lucas pires, felipe zenícola, marcos campello e renato godoy. eles mudaram completamente minha percepção de música vocal e acabou resultando em álbuns como ilhas de calor e niños heroes.

falando sobre o título niños heroes numa entrevista, você comenta que esses dois vocábulos se encaixaram perfeitamente na ideia do disco. que ideia seria essa?

leo – os caras editaram a entrevista, esse trecho perdeu o sentido. eu dizia que os dois vocábulos mutuamente estrangeiros se encaixavam perfeitamente na ideia do disco, porque se no ilhas de calor não havia uma ideia muito consciente de limite, no niños ela se consolidou. então esses vocábulos aparecem como metáfora da noção de limite estilístico no contexto amplo do disco.

a que você se refere quando fala em limite estilístico?

leo - eu me referia ao disco, ao fato dele soar pop e ao mesmo tempo ter um comportamento ambíguo, ora pop, com uma força de penetração pop, mas realizado a partir de procedimentos mais incomuns à criação de canção. no niños a gente tava mais consciente disso porque a gente já tinha passado pelo ilhas de calor. curioso que a gente chegou a esse nome porque tinha uma estação de metro pela qual passávamos sempre, na cidade do méxico, chamada "niños héroes". e como não havia acento em héroes nas placas, pra gente soava como niños heroes. na verdade, eu queria um título que fosse uma expressão corrente na língua portuguesa, mas derivado do inglês, como outra vibe (que é uma canção no disco). queria algo inspirado em mó bad do satanique samba trio, mas niños heroes acabou se impondo.

ao longo do álbum você fala de "imagens brutas do tempo do glifosato [herbicida tóxico da monsanto) e do krokodil (poderosa droga russa derivada da morfina]". algumas das imagens são “bebês fantasmas das guerras dormindo” e a expectativa de vida no brasil como “chance de calouro”. você se considera panfletário? é um disco explicitamente polítco, mas as letras são sempre difusas.

leo – todos nós panfletamos alguma coisa, é inevitável. tem uma música no ilhas que diz que “só o céu dos otários é neutro”. a confusão é parte de uma estratégia de discurso que pretende destruir a imparcialidade. godard dizia na época do grupo dziga vertov, se referindo às esquerdas de seu tempo, que se um operário não fosse capaz de compreender seus filmes, não seria capaz de fazer a revolução. mas aqueles filmes anti-didáticos, com duas linhas narrativas justapostas (imagem e som), até hoje devem esperar uma compreensão estética das esquerdas.

é como se tivessem aberto a caixa de pandora dos sentimentos verbalizáveis e não verbalizáveis. parece que, paradoxalmente, o super-homem habita a internet pairando acima do bem e do mal.

Você mencionou a noção de aura de walter benjamin na rostidade no cinema, fazendo analogia com a voz na canção. aa entrevista ao Banda Desenhada você também fala da reprodutibilidade técnica como marco que questionou "o que é arte?". ao mesmo tempo, respondendo e criticando o texto "fim da música", do safatle, você usou o termo "simultaneidade técnica". o que seria essa simultaneidade técnica e, no geral, como é sua relação com a teoria crítica?

leo - eu não lembro exatamente o que disse naquele post, mas creio que tenha me referido à simultaneidade técnica como cultura digital. quer dizer, quando a cópia deixa de existir e outro problema de natureza prática é colocado pro fazer artístico, em termos, sobretudo, de forma.

a música memória do google se refere a uma "educação que angustia tdxs os coraçõeszinhos totalitários” e "eternece". parece evidenciar que o totalitarismo está também no plano micro, onde menos é esperado. leo – o mais legal dessa é que eu criei esse "eternece" como parônimo de enternecer e eternizar, um neologismo no meio desses vocábulos que propõe de um lado, com enternecer, a ironia do sadismo totalitarista.

e por outro lado, a explicitação da eternização de seus códigos através de seus dispositivos pedagógicos. mas esse totalitarismo panóptico do nosso tempo, a nsa, o facebook, a internet, engendram nova moralidade em defasagem com os códigos civilizatórios de ontem. hoje todas as pessoas falam, e falam o que pensam. é como se tivessem aberto a caixa de pandora dos sentimentos verbalizáveis e não verbalizáveis. parece que, paradoxalmente, o superhomem habita a internet pairando acima do bem e do mal. eu acho que de alguma forma, no brasil, isso vai nos conduzir ao superpatrimonialismo, uma espécie de apropriação de todas as coisas por todos e pulverização do estado em clãs, tribos, pequenos grupos de posse do que consideram seu, zonas autônomas. isso é uma espécie de idílio pra mim.

ao mesmo tempo em que suas letras são fragmentadas e enturvadas, você diz não ser um “não-representado” politicamente e rejeita a relativização dos polos esquerda e direita. pelo contrário, reitera: é esquerda, é pt, é dilma. por que? leo – eu fico preso ao dilema de agir pragmaticamente como comunicador e artisticamente – no sentido da reputação que platão conferiu aos artistas na república - como artista. mas é evidente que o brasil mudou significativamente pra melhor nos últimos anos e, embora eu me identifique em parte com o anarquismo, não acredito que haja, hoje, qualquer identificação popular com esse tipo de pensamento. vejo, pelo contrário, que a população brasileira ainda se sente muito identificada com as liturgias, os textos bíblicos, religiosos. dessa forma, acho que a esquerda deveria disputar a narrativa religiosa cristã num terreno próprio a ela. quando cristo diz: “meu reino não é desse mundo” ou “dai a césar o que é de césar e a deus o que é de deus” e isso passa batido na elaboração de um discurso esquerdista que prefere atacar aspectos fundamentalistas dessa ou daquela seita, perde-se a oportunidade de enfrentar o problema, literalmente, de frente.

outra coisa: a tal crise de representação não atingiu a população como um todo. pelo menos no brasil isso é evidente agora com essa polarização política. eu acredito que em alguns anos e com muito "trabalho de base anarquista" essa crise de fato possa aparecer com mais força e consumir o estado. mas enquanto temos um estado, precisamos nos apropriar disso pra resolver demandas urgentes da carestia, e o pt, com todos os defeitos, vinha fazendo isso. no entanto, continua-se matando pretos, índios e açoitando minorias. meu lado artista diz que temos que ser mais violentos, mas meu lado comunicador pragmático o evita.

não acha que a construção da usina de belo monte e a copa do mundo foram erros de uma política desenvolvimentista e que afastaram o pt da esquerda que os elegeu? leo – sem dúvidas! e o terrorismo ambiental da samarco também. mas não podemos esquecer que grande parte da esquerda que elegeu o pt, o elegeu no segundo turno, com um voto temerário. era dilma ou aécio. dá pra ver a grande diferença.

em um post no facebook você disse não se arrepender de ter recusado todos os convites d'o globo. que convites eram esses? quando decidiu boicotar? ao mesmo tempo, você foi ao prêmio multishow. por que? leo - eram convites pra matérias, recebi do grupo civita tb, essas coisas, revista elle. acho tudo ridículo, sobretudo porque eles não tolerariam dissenso, ainda mais vindo de um desconhecido. ano passado fui convidado pra uma filmagem do programa sintonizando (d'o globo). levei a equipe pra favela Metrô-mangueira, ia com uma blusa onde se podia ler "cadê o DARF? [documento de arrecadação de receitas federais, que comprova que não há sonegação fiscal" e cantava "o nosso coração é uma cloaca'. cê acha que eles passariam um negócio desses? ao mesmo tempo fui ao prêmio multishow pra satisfazer minha curiosidade. queria ver aquele circo de perto uma vez. se o marco civil da internet não tivesse sido sancionado, a despeito da força das redes sociais, talvez eu tivesse, hoje, que estar mendigando matérias nesses veículos, mas o pt foi astucioso, não mexeu com a TV e foi sagaz com a internet.

nota: a filmagem do sintonizando com negro leo não foi ao ar

não acha que é mais interessante tentar uma brecha por dentro da máquina? como você mesmo observou, no jornal do commercio, um dos maiores jornais daqui do recife, você tava na capa, defendendo o pt na crise e um "trabalho de base anarquista"; enquanto o editoral do jornal era contra dilma. nessas brechas, há casos interessantes como a juçara e a própria ava vencendo prêmio multishow. será que o negro leo é tão distante disso?

leo - às vezes, depende em que condições. quando eu falo em globo, também falo da minha área cultural, e parte da força de antagonismo que pretendo exibir é mais palpável nesse contexto artístico-político local. eu acredito que rivalizar com a globo no rio de janeiro é fundamental pra acelerar o declínio da emissora no país.

você está preparando um novo disco com violão para este ano e comentou que eram "canções de amor". fala um pouco mais sobre esse trabalho. leo – cara, eu disse que eram canções sentimentais, não particularmente de amor, mas canções sobre sentimentos. enfim, há coisas de amor também, afinal, eu amo como todo mundo. mesmo os maiores narcisistas amam. o disco tem 12 canções, tá ficando bonitinho, acho que dessa vez consigo fazer mais do que sete shows por ano. forever dolphin love [disco do neozelandês connan mockasin], giovani cidreira e pedrinhu junqueira são as maiores referências do álbum. tem algumas parcerias minhas com ava e está sendo gravado na rockit [estúdio de dado villa lobos] com estevão casé, domenico lancelotti, pedro dantas, eduardo manso, marcelo callado, bruno di lullo, bruno schiavo, ricardo dias gomes e acho que chicão (do quartabê) vai fazer uns arranjos pra melotron em duas faixas. saravá!

 
 
 

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