insignificanto, quasicrystal: entrevista com sanannda acácia
- GG Albuquerque
- 29 de jan. de 2017
- 12 min de leitura

foto: sanannda acácia
eva mitocondrial, do insignificanto, foi um dos discos mais enigmáticos que ouvi no último ano. são quatro faixas com longas sustentações que, a partir de diferentes topografias/ambientes, compõem uma narrativa inspirada na eva mitocondrial, a primeira ancestral, "a mãe de todos os humanos", indo do início abrasivo e violento rumo a um ar mais meditativo no final. o espaço das músicas é preenchido por blocos sonoros saturados, sobre os quais as sobreposções de camadas fazem surgir novos acontecimentos. há ainda uma plasticidade detalhada que percorre o álbum, como a vibração dos trovões na faixa de abertura emana às tesouras rasgando o plano do estéreo em ordem da fatalidade.
insignificanto é um dos projetos de sanannda acácia. radicada em curitiba, sanannda também é artista visual e uma das organizadoras da seminal records -- aliás, o selo que mais/melhor lançou discos de música de ruído em 2016. lançado em março, eva mitocondrial, seu primeiro disco foi produzido ao longo de dois anos. mas ela não demorou para lançar o seguinte: q c, assinado como quasicrystal, projeto em que novamente aborda relações entre ciência, tecnologia, (trans)humano e xenofeminismo (xf seeks to strategically deploy existing technologies to re-engineer the world). apesar dos temas, um discocom resultados diferentes, faixas curtas e mais focadas nas pontuações.
essa entrevista aconteceu em duas partes. na primeira, sanannda falou por email sobre o insignificanto. a segunda ocasião foi após as apresentações do dissonantes no festival novas frequências, em dezembro, onde falamos mais sobre o quasicrystal.
você vem das artes visuais. quando e como começou a se envolver com música e quais os seus interesses ao se relacionar com o som?
eu comecei a produzir música em 2013. havia muito tempo eu tinha interesse em começar algo, mas foi naquele momento várias coisas aconteceram para favorecer isso. eu sempre me senti atraída pelo processo de gravação, então a primeira coisa que fiz foi comprar o gravador digital mais baratinho que eu encontrei na internet. comecei gravando algumas paisagens sonoras e as manipulando posteriormente através de colagem e processos de distorção. para mim compor sempre foi um processo de tatear e investigar em primeiro lugar. quando eu comecei foi totalmente do zero e totalmente intuitivo, eu realmente estava testando tudo e descobrindo como as coisas reagiriam. eu já tinha alguns anos de escuta e pesquisa de música. eu era daquelas pessoas ratas de internet que baixam mais música por dia do que são capazes de escutar. era fanática usuária do soulseek, colecionava achados de projetos raros de cassette culture dos anos 80, industrial, minimal synth, harshnoise, bandas de crust punk... coisas que vieram a me influenciar posteriormente a adotar uma estética que abraça mais as limitações dos equipamentos e que busca seus resultados por meio delas.
como a questão visual de seus trabalhos como artista plástica interferem ou influenciam a sua música e vice-versa?
muito mais do que eu saberia dizer. como eu disse, trabalho muito me aproveitando de limitações de suporte, defeitos e mau uso de equipamentos. de certa forma isso me aproxima mais da relação com a materialidade que existe nas artes visuais. gravações são enquadramentos, ângulos e recortes. trabalho muito através desse código de percepção. ficou ainda mais claro quando comecei a mixar, penso minhas mixagens como grandes mosaicos e minha atenção é muito voltada para a espacialidade que é representada na gravação. muitas vezes eu busco efeitos que apresentam gestos de caráter impossível, o que exemplifica uma tendência de procurar afastamento total do acontecimento acústico físico real. as amostras de gravações são montadas levando em consideração coisas que talvez um músico profissional acharia absurdas. as soluções acústicas e psicoacústicas nas minhas composições têm muito a ver com essas associações visuais que faço na hora de pensar o enquadramento que dou a determinados materiais. a princípio essa era uma tendência natural, mas a medida que notei isto, comecei a explorá-la de forma consciente. hoje, conhecer melhor os processos que me levam a adotar essa concepção visual na hora de compor também faz parte da minha investigação.
como foi o processo de concepção do eva mitocondrial? digo, você já havia gravado algumas faixas e postado no soundcloud, mas como foi que o disco se desenhou como um trabalho per si, um álbum?
eu tinha lido sobre a descoberta da eva mitocondrial e achei curioso como algo que à primeira vista soa como uma referência a uma suposta unidade-ancestral-comum gera perplexidade ao percebermos como essa mesma unidade torna notável a capacidade que os seres humanos têm de se readaptar. o que numa primeira vista nos choca por uma possível relação com nossos semelhantes se torna num segundo momento testemunho da capacidade de diferenciação e afastamento que isto acarreta. há três milhões e meio de anos surgiram os primeiros ancestrais humanos, mas todas as linhas genéticas mitocondriais de antes de cerca de 200 mil anos foram extintas. todos os seres humanos da contemporaneidade descendem geneticamente de um único dna mitocondrial - o mais recente ancestral comum -, de descendência unicamente matrilinear, que é característica particular das organelas mitocondriais em mamíferos: a eva mitocondrial. isso significa que todas as pessoas do planeta carregam em si o dna mitocondrial de uma única mulher que viveu cerca de há 200 mil anos. e apesar de possuirmos basicamente o mesmo hardware que nossos ancestrais de milhares de anos, a história nos prova como fomos capazes, e ainda somos de forma cada vez mais acelerada, de criar realidades que nos distinguem cada vez mais dos nossos antepassados.
a objetivação cientifica e o uso do conhecimento adquirido através dela tornou-se um hábito necessário e cada vez mais faz parte da vida humana. considerando que do momento que acordamos até o momento que vamos dormir tomamos decisões baseadas em coisas que consideramos cientificamente verdadeiras, o curso da vida do homem está atrelado de forma cada vez mais naturalizada ao pensamento cientifico e ao desenvolvimento tecnológico. apesar de todos os problemas ambientais e sociais que esse desenvolvimento traz, eu vejo como muito promissora a possibilidade que isso nos permite de ressignificar nossa existência biológica, o que para mim viria como algo extremamente libertador.
essas considerações são apresentadas na forma de uma narrativa no disco. narrativa essa que pretende ser combativa a um sentimento de angústia sobre a suscetibilidade perante as fatalidades impostas pelo estado de natureza. ela expressa num certo sentido uma forte tendência a auto-aniquilação, pois ao mesmo tempo em que reivindica controle sobre minha própria existência, considera os próprios mecanismos que a configuram como tal seu maior empecilho para alcançar a auto-gestão. talvez haja ai uma vontade de tornar-se mais máquina. admito ser bastante paradoxal esse ímpeto de vida pós-auto-aniquilação, mas paradoxos são importantes também.
o disco narra exatamente a saga de estar em penitência, exposta à mercê de forças incontroláveis e pretende ir de encontro a determinações mais autoconscientes. a primeira faixa mobiliza uma energia muito densa e imprevisível, cheia de violência e bastante primitiva. as faixas seguintes se situam num limiar de ações que vão lapidando um caminho a ser percorrido até atingir a possessão do verbo na última faixa, verbo este que é condição para uma constituição própria mais auto-determinante. as faixas são grandes blocos de massa contidos em si mesmo, os gestos emergem de um espaço totalmente tomado de ressonâncias e saturação. eu pretendia com isso criar ambientes que soassem muito densos, como se a escuta te jogasse para um espaço onde tudo soa fora de uma possibilidade facilmente reconhecível projetando uma sensação de artificialidade e procurando aproximar o resultado sonoro dessas premissas em torno de questões que me interessam na ciência, como o transhumanismo e a ética biohacker.
conta um pouco sobre a gravação do disco. o caron havia comentado comigo que você ficou cerca de um ano trabalhando nele.
primeiro eu recolhi muitas gravações. eram paisagens sonoras, improvisos com sintetizador, sons que eu tirava de objetos amplificados, texturas que eu criava provocando feedback encostando o piezo no falante do amplificador...esse tipo de coisa. eu estava conhecendo os suportes e investigando as opções que eu tinha sem pensar num resultado muito especifico. a confecção do disco veio depois, na mixagem com a escuta do material que eu já havia recolhido.
então a narrativa do disco foi se definindo em termos de resultados sonoros apenas durante o processo de mixagem. até um certo momento a única coisa que eu tinha eram essas gravações bagunçadas numa pasta do meu hd. quando eu cheguei na parte da mixagem percebi que ela era uma ferramenta que abrigava muito mais os meus interesses no desenvolver criativo do que os gestos sonoros mais imediatos. foi a partir desse momento que eu fui descobrindo o disco, posso assim dizer. isso levou bem mais de um ano, foram dois ao todo. a finalização ficou por conta do paulo dantas, que fez um trabalho foda na masterização.
a questão da mulher no espaço de música experimental é muito abordada. permeia tanto discos (como o cantar sobre os ossos) quanto ações mais diretas, como o grupo de improvisação meteoro, a série de concertos dissonantes e o xx, do qual você participou. como este tema ressoa em sua música?
muito do meu imaginário tem relação com a entidade feminina, acho que no disco isso fica explícito na própria escolha no nome, sendo eva uma personagem bíblica feminina e mitocôndrias sendo organelas que transmitem seu dna através de herança exclusivamente matrilinear. nas minhas pinturas isso sempre foi muito forte, trabalhei muito fazendo referencias ao período da puberdade, o acontecimento da menarca... momento que é onde a maioria das meninas começa a ter que adotar certos comportamentos e a ser vista como mulher. na minha vida essa foi a fase que mais me marcou e foi também a fase mais traumática e ao mesmo tempo reveladora. sempre senti a minha sexualidade de um jeito muito intenso, ora amedrontada ora curiosa. a força sexual sempre me atraiu muito, e foi algo que muito antes de eu ter convicções feministas eu intuía que eu teria que lutar para exercer. por muito tempo foi um grande tormento. então na minha música e nos meus interesses a dita questão da mulher está presente, mas não como uma bandeira ou referência a mulheres num geral, mas muito mais relacionada a minha forma de tratar assuntos como a minha própria sexualidade.
obviamente eu tenho preocupações políticas em relação as questões que pautam a participação feminina na sociedade. eu sou membro da seminal records, e é uma preocupação constante estar contemplando mulheres no selo. mas a forma como o feminino aparece na minha música não pretende se apresentar através do viés de preocupação politica, mas através de uma narrativa que deflagra minha relação pessoal com minha condição de fêmea e minhas considerações e experiências sobre minha sexualidade. eu apenas exibo a minha experiência do feminino espontaneamente, sem subjugar isso a questões sociais/politicas comuns.
na faixa emana, há o som de trovões. em outra faixa, no soundcloud, você trabalha com gravação de chuva. por que decidiu trabalhar estes sons de fenômenos da natureza e como você lida com as gravações de campo dentro da composição?
sempre gostei de usar gravações de campo de uma maneira para alguns pouco ortodoxa. eu as manipulo e não tenho aquele interesse pelo registro fiel do momento. me interessa justamente a qualidade de afastamento do evento físico que a gravação proporciona. nessa primeira faixa, os sons de trovão são um loop que eu manipulei e depois regravei em linha deixando clipar de propósito. isso foi sobreposto com um glissando de frequências puras que eu havia feito num desses softwares geradores de frequências e ondas. quando o som clipava isto gerava uma interrupção por alguns milésimos de segundos nas outras camadas. usei achando uma interferência interessante e análoga ao movimento dos raios e trovões, que são abruptos e violentos.
então eu penso que busco nessas menções a fenômenos naturais, apresentar um ambiente sonoro onde esses elementos se exprimem de fora de seu âmbito. o que para mim também faz menção ao fato de que quando acessamos certos eventos do passado através da memória, os enxergamos através de um recorte subjetivado do evento real que compõe essa lembrança. minhas paisagens de campo privilegiam esse recorte onde o registro é imperativo em detrimento do evento registrado. na terceira faixa eu uso o registro de uma performance em que movo um amplificador ligado a um mic de contato gerando feedback por uma sala, esfrego o mic no falante, arrasto e sento em cima do amplificador, dou socos, levanto nas costas e o jogo no chão... enfim, algo bem gestual. mas no disco, eu optei por submergir o registro dentro de uma supersaturação. isso deve-se muito ao forte ímpeto de dominar uma força de natureza mais bruta, me apropriando disso ao meu favor. gosto de pensar que manejando esses elementos estou estabelecendo uma realização mágica através deles.
e qual o conceito que moveu o quasicrystal?
eu me inspirei na não-periodicidade dos cristais. então eu aplico simbologias nos meus parâmetros pra fazer a musica na mixagem, nas gravações. e através dessas simbologias eu consigo criar uma atmosfera que faz referência aos cristais não-periódicos, que foi uma descoberta sobre a morfologia da matéria na verdade.
como assim não periódicos?
não periódicos não significa que é amorfo. significa que eles tem uma oscilação de periodicidade que não é exata.
mas periodicidade de que você fala?
da composição atômica dos cristais mesmo. e através disso descobriram que a não-periodicidade tá presente em quase todos os átomos e moléculas. foi uma descoberta recente, na verdade.
e o xenofeminismo, como entrou nessa?
o xenofeminismo é um interesse recente que eu tenho. é a ideia de estabelecer uma nova relação entre biologia, existência, biohacker e a capacidade de você se modificar, presente no eva mitocondrial também. uma auto-realização do próprio corpo. e entra muito em teoria queer e readaptação da biologia. eu tenho interesse em biologia e aplicar essas teorias científicas na minha música, e como o xenofeminismo trabalha muito com biologia, ciência, tecnologia, eu usei as gravações de forma... geralmente eu uso looping pra estabelecer essa relação de periodicidade ou não. então eu intercalo essas camadas, sobreponho e tento estabelecer um tempo entre esses elementos e acontecimentos dentro da música.
o que tu usou pra fazer o disco?
eu sempre uso gravação de campo. geralmente não dá pra identificar o que é, mas eu uso muito. nesse disco teve vento, teve passarinho em time stretch... é um dos teus interesses distorcer essa figuração, né?
é o meu principal interesse na gravação de campo. justamente ver o que o gravador causa. não representar daquela forma como uma "adoração à natureza". eu trabalho mais com a readaptação dela. não dessa forma que possa parecer escrota, mas é porque tem referência com as simbologias que eu aplico.
você chegou a estudar algo de botânica pra fazer os quadros com as plantas?
não. não formalmente. eu tava usando plantas mortas, mas eu tava pesquisando germinação, então eu queria fazer uns quadros vivos também e criar os caminhos da germinação, deixar elas expostas de forma transparente. mas isso ainda não desenvolvi.
ainda tá estudando
tô estudando. e dá um trabalho do caralho. tem que pesquisar o que eu iria usar. provavelmente seria vidro e seria muito caro, precisaria de espaço. artes visuais é um saco porque você trabalha com material, é tudo caro. nesse sentido, fazer música, quando você tem o mínimo de equipamento, é mais acessível.
e como surgiu o projeto do arcofluxo, com a bella?
eu tinha uma ideia de trabalhar com projeções de elementos da biologia, naturais ou não, e projetar isso num espaço de escuta de alguma forma, fazendo associações, referências. eu não sabia muito bem o que fazer, o que usar. daí eu tive a ideia de usar frequências puras e coisas relacionadas à planetas e tal. conversando com a bella eu descobri que a gente tinha muita coisa em comum o próprio processo de fazer o som, acho que tem uma plasticidade no som dela que eu me identifico bastante. eu acho que os nossos resultados, o jeito de trabalhar com o som é muito parecido. o processo é muito parecido, a forma como a gente recolhe o som é muito parecida. e tem essa coisa do material, da interferência do equipamento que tem muito no trabalho dela também. e ela já tinha me falado que tinha feito gravações de planetas e eu tinha umas gravações de frequências puras associadas aos planetas. óbvio que isso não é uma ciência exata, é só pura simbologia. mas a ideia era unir elementos que fizessem referências aos planetas e a elementos relacionados ao planeta.
então a gente uniria essas gravações de campo, esses materiais todos e a gente criaria um espaço projetado em uma sala de forma circular e com aparelho quadrafônico que deflagaria a artificialidade do processo fazendo referência a um movimento natural dos planetas. a ideia era que cada uma fizesse um movimento com o gravador ligado no retorno do amplificador. então a gente estaria gravando pequenos sons e imitando um movimento dentro desse círculo.
retroalimentando o som com as gravações dele
isso, retroalimentando. então o show estaria acontecendo ali com pequenos objetos reproduzindo os materiais e a gente estaria devolvendo o som do show amplificado para os amplificadores fazendo os movimentos relacionados. então cada uma circularia dentro desse espaço de forma a fazer referências a esse movimento [dos planetas]. cada uma faria uma forma geométrica dentro desse circulo. a gente não sabia o que ia acontecer e foi muito foda, fiquei emocionada. achei que ia dar tudo errado porque a gente ia ligar um gravador mega sensível no retorno do p.a. e podia dar feedback. não deu, foi tudo certo.
n.e.: arcofluxo foi apresentado no encontro nacional de criatividade sonora (encum), no dia 19 de novembro de 2016, em porto alegre, com isabel nogueira

foto: fernanda kowalsky.
o show no dissonantes [julho de 2016, em são paulo] me chamou muita atenção pela sua performance, a coisa de transar com o microfone, se jogar no amplificador. como você se relaciona com a performance? há relação entre isso e o disco?
eu sinceramente não penso muito nisso, então quando eu uso é porque... eu acabei usando. mas eu não tenho essa proximidade com a performance. acho que eu sou uma artista mais recolhida, mas acabou acontecendo. a intenção era quebrar um primeiro ato da peça, onde eu já usava essas gravações do primeiro disco. eu interrompia isso e fazia a performance do amplificador, o que na verdade era um movimento até meio inverso ao do disco representativamente, porque a performance representa algo mais cruel, mais violento, e eu acho que a primeira parte do disco é mais violenta mas eu geralmente usava a performance no final [do show].
mas as minhas coisas geralmente eu não... não é que eu não saiba o que estou fazendo, mas eu nem sempre sei o que eu estou fazendo de forma objetiva. vou investigando as possibilidades. aquela performance foi algo que aconteceu mas eu não me considero muito performática, pelo menos por enquanto.