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arto lindsay - cuidado, madame: um movimento de delicadeza etérea

  • GG Albuquerque
  • 10 de abr. de 2017
  • 3 min de leitura

em meio a uma sessão de improvisação, entre os ataques agudos de sua guitarra, arto lindsay canta músicas de batatinha, caetano veloso, nelson cavaquinho, wilson batista e outros mestres da música popular brasileira. a sua arte habita no espaço entre os extremos: o feio e o belo, o grotesco e o encantador, popular e vanguarda, ruído e melodia.

porém, arto não faz isso como um exercício de conciliação simplificada. é um modo de transformar as ideias pré-concebidas e lançar novas interpretações – desassociar o ruído de uma noção negativa e ver o experimentalismo de uma canção singela de joão gilberto, uma de suas principais influências, por exemplo. essa, digamos, “poética das inversões” está em basicamente toda obra do músico e novamente em cuidado, madame, seu novo álbum.

nascido em richmond (virginia, eua), arto lindsay veio com a família para pernambuco – seu pai era missionário presbiteriano e passou a infância e parte da adolescência em garanhuns. ao voltar para os eua, desta vez em nova york, formou a banda dna e encabeçou o no wave, um movimento niilista e radical em resposta a cooptação do punk pelo mainstream. ainda influenciado pela música brasileira, especialmente o tropicalismo e joão gilberto, ele participou de grupos como o lounge lizzards e ambitious lovers e, como produtor musical, redefiniu o som de caetano veloso, marisa monte, carlinhos brown e nação zumbi, entre outros.

lançado no japão en janeiro pelo selo p vine e nos eua em abril pela northern spy records, cuidado, madame é seu primeiro disco de canções desde salt (2004). mas engana-se quem pensa que arto esteve parado durante este tempo. em 2014, lançou com o baterista norueguês paal nilssen-love o espetacular scarcity, álbum ao vivo na audio rebel, no rio de janeiro. também colaborou com uma série de novos músicos da cena carioca, como thiago nassif, luís filipe de lima e bruno cosentino e produziu o primeiro disco da orquestra contemporânea de olinda.

essas vivências estão no disco, que é cheio de participações de músicos brasileiros. tem o dj omulu nas programações e lucas santtana na guitarra em seu pai. dadi (dos novos baianos) faz o violão de pele de perto. e tem ainda a batucada dos atabaques comandados por gabi guedes, iuri passos, icaro sá, jaime nascimento e ricardo braga.

o título vem do filme homônimo de júlio bressane, em que empregadas domésticas, inconformadas com as condições às quais são submetidas, começam a assassinar seus patrões. apesar da sugestão de violência, o álbum é dominado por um movimento de delicadeza etérea. em seu pai, arto sai associando imagens (“água corre sobre a pedra/ fio que descarrega/ o ouro nem sempre doura a pele/ a luz nem sempre é veloz”) que são elevadas pela combinação de delicadas texturas de beats eletrônicos, percussão, piano e um discreto violoncelo. pele de perto, ao piano e violão, tem a voz sussurrada de lindsay evocando uma “noite lá no agreste”, onde “estrelas em sua grandeza acima das nuvens descansam” e “o seu sotaque macio cai como uma chuva”.

o ritmo é elemento fundamental neste álbum. o processo começou com as gravações dos atabaques e depois arto escreveu melodia e ritmos em estúdio no brooklyn. os ritmos do candomblé foram a inspiração e aparecem com destaque em tangles, ilha dos prazeres e vão queimar ou botando pra dançar. esta última, com pandeiro de icaro sá, tem um clima dub, com uma batida eletrônica espacial, cheia de eco.

na segunda metade do disco há três faixas destoantes do clima detalhadamente desenhado até então. arto vs arto é uma sobreposição dos barulhos da guitarra de lindsay (que soa como se estivesse caindo aos pedaços) com gemidos, grunhidos e outros sons esquisitos feitos com a boca. na sequência vem uncrossed, com um ruído eletrônico saturado ao fundo, alguns acordes no violão e a voz macia de arto por cima – é como ouvir uma canção desintegrando. já unpair começa suave e vira um lance free jazz de quebradeira anárquica.

cuidado, madame é arto mostrando a canção como um ser deslizante, fugidio, um dispositivo de invenção que recusa demarcações simples.

 
 
 
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